Olhós Pregões, Quem quer Pregões
Mesmo para os leitores supostamente menos intelectuais, não será de todo desconhecido o termo “Pregão”. Basta consulta qualquer dicionário da Língua Portuguesa, que logo se constata que desta palavra deriva o pregoeiro, como por exemplo: os anunciadores da Lotaria Nacional ou alguém que publicamente anuncia ou divulga alguma coisa.
Ainda hoje nas feiras e nos mercados, ao ar livres ou fechados, os vendedores, mais concretamente os ambulantes, gritam aos quatro ventos, anunciando os seus produtos.
Porém, há pregões que jamais se ouvirão. E quem nasceu de há cinquenta anos para cá, será aliciante recordar algumas das ancestrais formas como vendiam ou compravam os mais variados produtos.
Antes da negociação propriamente dita, havia a preocupação de fazer constar a presença de quem comprava ou vendia.
Era aqui que aparecia o “Pregão”. E então pelas ruas das vilas e aldeias, e até outros centros mais urbanos, era comum ouvirem-se pregões como este: “Sarro o Borras”, ou então “Peles de Coelho”.
Nos teares caseiros, dos quais hoje só existem réplicas, teciam-se confortáveis e bonitas mantas de retalhos. E então tudo o que fosse roupa velha, servia para, ao serão, rasgar em tiras de 15 a 20 milímetros de largura, que depois de enroladas em novelos “bolas” (1) eram vendidos a quem, normalmente associava mais que uma actividade, e então ouviam-se mulheres de canastra, em forma de gaiola, à cabeça e nos braços carregando sacos gritando, “Farrapo e Galinha”.
O Guarda Soleiro ou Amola Tesouras, era outra figura que há muito desapareceu do nosso quotidiano, e embora não usasse qualquer pregão para se fazer anunciar, usava um instrumento de sopro, estridente, único e inconfundível. Na sua oficina ambulante, composto por caixa de ferramenta, bigorna e alguns guarda chuva velhos, que constituíam matéria prima para consertar outros, tudo isto era transportado num carrinho de uma roda só, que quando parado, estabilizava em quatro pernas, duas das quais serviam de manetas para impulsionar o carro, em movimento, ficando a roda liberta que por acção de uma correia, transmitia rotação a um esmeril (mó de afiar), accionado por um pedal com manivela. Afiava facas, tesouras, e as louças partidas, pratos, travessas ou alguidares (não havias plásticos), eram carinhosamente juntos, tomando a forma inicial, eram unidos com grampos de arame, feitos na hora, e aos quais chamavam “gatos”, que depois eram solidificados com gesso amassado.
Recuperava guarda chuva avariados, e talvez por isso era um prenúncio da chuva quando aparecia. E um ou outro eventualmente capava leitões. Eram por isso o terror das crianças. Estas quando andavam com a “pilinha” ou “pipi” à mostra (2),eram amedrontadas pelos pais com a chamada do “capador”, que era o homem da tal gaita de sopro, o Amolador.
Os tempos eram difíceis. Não havia supermercados como agora. Quase tudo se comercializava porta a porta, e era frequente ouvir-se a vendedora de ovos a gritar: “Quem quer ovos fresquinhos?”, “ Chocos da Praia, Sardinha e Petinguinha” gritava logo atrás a sardinheira de canastra à cabeça, em tom de arremedo.
É evidente que a peixeira se referia ao peixe com aquele nome, mas havia sempre a Segunda intenção, a rivalidade.
Ainda está nos meus ouvidos o som do búzio, acompanhado do pregão, por vezes brejeiro, ”Brigagão ó Botaréu, Olh’ó Brigagão graúdo”. “Meninas levem a crica”. Ao Berbigão, talvez pela semelhança anatómica com certos órgãos femininos, chamavam cricos e cricas, ou Brigagão na gíria popular, vinham em carroças de burros ou nos mercantéis, da Costa Nova, Barra e da Murtosa.
Havia o engraxador de sapatos que à porta do café jardim ou café Santos, os únicos do meu tempo de criança, ou em grupo junto à loja de tecidos da Rosa Nó, hoje casa das tintas, gritavam a chamar os fregueses: “Ó C’roa Ó graxa”. A coroa eram $50.
“Funileiro à porta”, gritava pelas ruas das aldeias, o homem que remendava funis, almudes e regadores.
Trazia sempre o ferro de soldar quente, cuja fonte de calor era proveniente de um púcaro com brasas de carvão, que transportava num carro de mão onde trazia outras ferramentas.
Vinha um homem do Ameal, de apelido “O Estona”, para o mercado ou campo de futebol, onde hoje é a Praça do Município, onde apregoava: “Olh’ó chupa chupa”. Custava $50 (cinco tostões ou meio escudo), e era um cone de açúcar em ponto, envolto em papel de várias cores e simetricamente disposto num tabuleiro transportado à frente do ventre, com a ajuda duma correia ao pescoço. Era a delícia das crianças e até dos adultos mais gulosos.
Os pregões tinham uma música muito especial, tão especial que creio não haver a sua reprodução gravadas em pauta. Mas a verdade é que também não eram falados. Uma coisa é descrevê-los. Mais aliciante seria ouvi-los, tal como ainda os ouvi. Eles constituem ricas peças de Folclore, que alguns grupos ainda tentam preservar.
Aqui ficam algumas dessas relíquias, graficamente demonstradas, e não resisto a deixar mais um: “Olh’ó Seringador e Borda d’Água”, folhetim que adivinhava quando vinha chuva, dava a conhecer as luas e orientava os lavradores nas sementeiras durante o ano.
(1) Roubei alguns à minha mãe para fazer bolas de futebol, depois de embrulhadas numa meia, às vezes roubadas dos coradouros.
(2) As crianças pobres nas aldeias, era frequente andarem de bibe, mas sem calções..
Chula d’Águeda