Pus-me a reflectir sobre as pessoas da minha terra. As que conheci e as que conheço, e que por qualquer motivo altruísta, se tornaram, dignas que se fale delas.
Classifiquei-as em vários grupos. Os que partiram, os que ficaram, os que vão e voltam e ainda os que vieram e cá se radicaram.
Ainda há pouco tempo, três personalidades de Águeda, os chamados “Homens Bons”, foram publicamente homenageados. Aplaudi e até me associei por achar oportuna e merecida. Pertencem ao grupo dos de cá. Sempre amaram Águeda com tanta intensidade que nunca se apartaram dela. Cá nasceram, cá viveram as suas vidas, cá investiram as suas capacidades, contribuindo de forma directa para o engrandecimento da terra que foi o seu berço.
Muitos outros pertenceram ou pertencem as este grupo e Águeda vai-se orgulhando de os ter como filhos.
Há também os que cá nasceram e pelas mais diversas circunstâncias se instalaram em outras paragens, e uns quase e outros totalmente esqueceram a sua terra natal, e nada fizeram ou fazem por ela. Desses não vou falar. Não ajudaram nem ajudam na construção da História de Águeda. Nunca puseram em prática aquela quadra de António Aleixo:
“O mundo só pode ser
Melhor que até aqui
Quando cada um fizer
Mais p’los outros que por si”
Há os que cá não nasceram, Mas Águeda com os sues pergaminhos de terra hospitaleira, os acolheu, e muitos vão fazendo História.
Falando do passado e mais concretamente do presente, é gratificante ver como muitos se entregam d’alma e coração às causas de um Concelho que é o orgulho do Distrito a que pertence, em termos culturais.
Será que a lenda da Água do Botaréu é mesmo verdadeira?
Só não vê quem não quer ver. Quem são e donde são tantos dirigentes que regem os destinos das Colectividades e Associações do nosso Concelho?
Por carolice perdem o sono por elas. São verdadeiras Amigas de Águeda. Só não são naturais, mas estes deviam pensar neles e estar atentos no que fazem por uma terra que não é sua.
E é para este organismo, a Anata, que eu vou dedicar as restantes linhas deste apontamento, falando dum outro grupo de Aguedenses. Os que vão e voltam quando a Saudade ordena.
Permitam que fale de alguém que recentemente nos visitou e já partiu. Alípio de Santos Vidal, 89 anos de idade, de profissão, alfaiate. Muito novo foi para o Brasil e foram tantas as provas de amor à sua terra, que ficou conhecido como sendo o Cônsul ou Embaixador de Águeda no Rio de Janeiro.
Que o diga quantos em sua casa ou na sua Quinta nos subúrbios do Rio, encontraram hospitalidade em ambiente familiar.
Que o diga os que há quatro anos , a convite dele, almoçaram em convívio, num restaurante da cidade.
E onde estavam esses amigos que há dois anos, de Maio a Setembro, o não visitaram?
Foi com lágrimas se saudade e desanimo que se despediu afirmando jamais voltar.
Sempre se revelou um apaixonado pelo Orfeão de Águeda, onde foi coralista e encantou plateias com os seus fados.
Vi-o partir ainda com outra mágoa. A de não ter podido ouvir cantar o Orfeão.
Foi inspirado na tristeza que vi nos seus olhos, que lhe dediquei um soneto, no qual o convidava a voltar a Águeda.
E voltou. Partiu há dois anos apoiado nas suas bengalas e veio agora em cadeira de rodas, auxiliado pela muita dedicada empregada, Aparecida de Sousa. Esteve no dia 15 de Junho, no Cine Teatro São Pedro, e deliciou-se com o espectáculo.
Pensava estar connosco até Setembro, mas de repente pensou regressar ao Brasil. Não disse a razão de tanta pressa.
E foi à pressa que um reduzido grupo de amigos, (não esteve nenhum dos de há quatro anos) lhe prestou uma modesta homenagem à despedida. O Breda gravou tudo para a posteridade, assim como gravada ficou a grande lacuna que se traduz pela ausência dos tais amigos. Também a Anata não esteve lá e ele até foi um dos fundadores, segundo ele. O Orfeão esteve representado esteve representado pelos tais de fora.
Levantam-se muitas duvidas. Afinal quem são os amigos e naturais de Águeda?
A Anata devia estudar a vida deste aguedense e talvez concluísse que é credor do galardão que costuma atribuir. E já não terá muito tempo para o fazer.
Alípio dos Santos Vidal é do grupo dos que partiram e voltaram muitas vezes.
Voltou a partir no dia 17-07-2002, e só um milagre da Nossa Senhora d’Ajuda, como ele disse, lhe permitirá voltar. Mas partiu contente. Foi o que pareceu aos de cá e alguns de lá, que estiveram com ele, de quem escutaram dois fados da sua autoria. E que voz ainda tem aquele “jovem” de 89 anos.
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Chula D´Agueda