Todos os Invernos, os jornais e outros órgãos de informação nos bombardeiam com notícias de cheias, e dos estragos mais ou menos avultados que as inundações provocam.
Quando este alerta for lido, falar-se-á da cheia do dia de Natal de 1995, que inundou de uma forma invulgar a Baixa de da Cidade de Águeda e zonas ribeirinhas periféricas, como sendo uma das grandes cheias de século passado.
Na altura muito se falou das mesmas, suas causas e consequências e até das formas de as minorar. Eu fui um dos que, ainda que sem habilitações para tal, mas com uma experiência única, falou de algumas formas de prevenção.
Prevenção sim. Porque vale mais prevenir que remediar. E foi neste contexto que previ o que aconteceu em 1995, no artigo “BARRAGEM DE ABADINHOS”, publicado em 30 de Setembro de 1994, nos jornais e posteriormente em livro, e me atrevi a falar da referida cheia em entrevista na Rádio Botaréu.
Recordo que, mercê da já referida experiência, pois eu teria sido o único (não há conhecimento de mais alguém) que no auge daquelas inundações andou lá de canoa e verifiquei como se comportavam as correntes e onde entrava a grande força de água que afectou a Baixa da Cidade.
Admiti na altura como protecção às ruas da Baixa, a substituição do gradeamento em ferro que existia no Largo do Botaréu (para mim terá sempre este nome e não o de 1º Maio) sobranceiro ao rio, que por estranho que pareça, nas circunstâncias de 95 funcionou como saída de águas para o rio e não como entrada das mesmas para as ruas. O isolamento desta seria conseguido com a ligação das duas pontes em parapeito de betão e consequente desvio da ribeira do Ameal ou Ribeirinho para montante da ponte nova.
Isto já aconteceu e dou os parabéns a quem tal determinou. Mas também foram estas entidades alertadas, que não descorassem uma medida muito importante, que consiste na subida da cota da estrada à entrada de Assequins, antes dos então semáforos, hoje rotunda, ou quanto muito um contra forte em aterro na zona da captação de águas com a robustez adequada.
As águas represadas a montante da ponte nova, dividiam-se em duas fortes correntes em frente ao novo mercado. Uma, em direcção à referida ponte, única saída e pouco mais, constituídas pelos tubos da baptizada “barragem”.
Na zona do Choupal de Abadinhos, as águas faziam uma rotação no sentido retrógrado, prova de que a “barragem” funcionou como tal. Foi ali que pela primeira vez tive medo de brincar com as cheias, (e as águas já tinham baixado um pouco), derivado à grande convulsão das águas em consequência do choque de correntes. A muito custo remei para Assequins, já que era muito perigoso aproximar-me da ponte e a pouco e pouco fui sentindo a necessidade de só guiar a canoa, pois a corrente me impelia naquela direcção.
E é como eu digo. A outra corrente era em direcção à zona referida e onde constatei que galgava a estrada, tornado a Avenida 25 de Abril num grande rio em fúria, passando em frente dos Bombeiros, derivando para o mercado pela rua Celestino Neto e desta pela rua da Soberania do Povo (antiga Rua da Cancela), abrandando o seu ímpeto na Rua de Baixo, (Vasco da Gama), já que a saída para o rio eras difícil.
Foi nesta altura que passando frente à casa de Manuel Alegre, estando ele à varanda, lhe perguntei se estava tudo bem. A resposta foi um não, pois disse ter mais de metro e meio de água dentro de casa e sem água para beber. Escusado seria dizer que encostei a canoa e apesar de ser manhã cedo de dia de Natal, consegui-lhe algumas garrafas de água içadas com uma corda.
Não será preciso ser-se muito inteligente para se avaliar as consequências de uma cheia semelhante, da qual não estamos livres ao contrário do que me disse um responsável autarca, cito «que cheias como as de 1995 só acontecem de cem em cem anos» fim de citação.
Nessa acesa conversa, não há muito tempo voltei a alertar da tragédia, já que as águas entrariam e agora não têm saída.
Nada fizeram até hoje, pois apesar do aterro despejado na zona crítica de Assequins, a altura da cota do terreno é sensivelmente a mesma.
Deus nos traga bom tempo e eu não seja profeta da desgraça, mas o que as consequências agora seriam catastróficas, não deixarão dúvidas.
Quanto ao Lugar do Sardão seria tão fácil quanto isto, e já várias vezes o disse. Subam a cota da estrada marginal desde a curva perto da minha casa até ao entroncamento com a variante, e usem a técnica do sifão, tal como terão que fazer nas ruas da Baixa, no que diz respeito às saídas de águas pluviais e esgotos para o rio. E não pensem duas vezes em criar mais saídas para as águas na variante da ponte nova em caso de grande cheias, pois que gostaria que a “barragem” que baptizei não fosse digna deste nome.
O belo e a solução seria a criação da ilha de Além da Ponte, com um braço de rio a desaguar em frente a Paredes.
Talvez valha a pena pensar nisto.
Chula d’Águeda
_________________
Chula D´Agueda