Morri, estou sepultado
Meu corpo é quase poeira
Vou mandar-te este recado
Não venhas p’rá minha beira
Minh’alma foi p’ró diabo
Está no inferno a'rder
Porque da vida fui escravo
Com mil vícios e prazer
Não mates como eu matei
A vida enquanto vivi
Porque a vida desprezei
Mais cedo vim para aqui
Com drogas matei meu corpo
Na ilusão de um bom viver
E agora meu corpo morto
Está aqui a'podrecer
Já fui como tu em pé
Deitado vê como eu estou
Fui vivo como tu és
Morto vais ser como eu sou
Goza a vida, come e bebe
Não te metas em sarilhos
Pobre de mim que não tive
Quem me desse estes conselhos
Dizia-me a minha avó
Meu neto, a vida é bela
Da vida não tive dó
Fui eu que dei cabo dela
Dizem que a morte alivia
Mas tu não vás em cantigas
A terra é pesada e fria
E cá não há raparigas
Cinza, pó, terra, nada
È assim que acaba a vida
Já que a vida te foi dada
Vive a vida bem vivida
Minh’alma no fogo ardente
Ela lá e eu aqui
A gritar-me eternamente
Que fui eu que a traí
Tenho saudades da vida
Da vida que já perdi
Eu só dei valor à vida
No dia em que morri
O riso duma caveira
È feio como o diabo
Tenho a minha à cabeceira
Com o dente arreganhado
Cá deste poço tão fundo
Que nunca foi paraíso
Dou este recado ao mundo
Vivam com muito juízo
Tem cuidado meu amigo
Se do teu corpo deres cabo
Mais cedo vens ter comigo
E a alma vai p’ró diabo
Chula d’Àgueda
Jan 99
_________________
Chula D´Agueda