Eram três moços que andavam na escola
Na idade em que tudo são ilusões
Transportavam caderno e lousa na sacola
E nos bolsos berlindes, o pião e alguns botões
Perante os impropérios do ancião
Impotente para o barco recuperar
Os três brigaram se iriam p’ro Sardão
Ou rio abaixo, ao Casainho passear
E lá fomos rio abaixo, divertidos
Desta aventura ainda vale a pena recordar
Que dum saco de tremoços, mal curtidos
Muitos roubamos p’ra comer ao regressar
António Batista Mendes “Correeiro”
Nome pelo qual conhecido na cidade
Fernando Guerra era o outro companheiro
Desta aventura que escrevi, por ser verdade
Ambos eram bombeiros voluntários
O António na Fanfarra era o primeiro
O Fernando, um amigo extraordinário
Pelo “próximo” deu a vida, num braseiro
Irreverentes como toda a malta é
Nesta idade, só pensando em brincadeiras
Roubaram um dos botes ao Ti André
Ancorados no velho cais das laranjeiras
Como quase sempre, ganhou a maioria
Dois contra um, nada pude argumentar
Mais que a corrente, outra força nos impelia
A mesma força que ao Sardão me quis levar
Passaram anos, vem a idade de amar
Cada moço pensa na fêmea p’ro seu ninho
Eu casei e ao Sardão fui parar
Os outros dois foram casar ao Casainho
O Deus todo poderoso quis que eu
Vivesse para esta história contar
O António de doença má morreu
E o Fernando, queimado, veio a’cabar
Foi o mistério d’algum poder divino
Ou foi apenas umas raras coincidências ?
Apenas sei que a ironia do destino
Marcou de modo raro as três infâncias
Chula d’Águeda
_________________
Chula D´Agueda